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domingo, 3 de abril de 2011

Um passeio com Bauman


Bauman, um dos maiores pensadores e sociólogos da atualidade, vem por meio de seus estudos situar tão bem a humanidade nos seus referenciais de Modernidade e Pós-Modernidade, respectivamente atribuindo a elas as metáforas “modernidade sólida” e “modernidade líquida”. A primeira estava ligada à ordem, e a segunda, ao caos. A partir dele, não dá mais para se pensar o mundo contemporâneo sem o entendimento do que essa oposição significa e das suas consequências que passam a operar “ingenuamente” em nossa sociedade.

O mundo moderno ou modernidade sólida se legitimava pela imposição da ordem, pela limpeza e pela beleza. Havia uma intensa correspondência discursiva entre a semântica das palavras e a contextualização da prática de vida. Era preciso nomear, classificar, ordenar, dar sentido a tudo, e aquilo que não passasse por essa lógica era considerado “estranho”, “diferente”, “estrangeiro”, e precisava ser eliminado ou segregado do convívio social. Esse período, por assim dizer, ostentava uma única verdade, que gerava monotonia, regularidade e era absolutamente previsível. Racionalmente, isso significava encaixar a humanidade num projeto de mundo civilizado moderno paradigmático, pleno de certezas finitas e de “total” segurança. A ordem estava instaurada e o Estado “jardineiro” (conforme afirma Bauman) tinha de encarregar-se de mantê-la sempre presente, reconhecendo apenas esse tipo de organização de vida. Um mundo com fronteiras, que necessitava de vigilância constante (aquele momento do panóptico, que Michel Foucault explica em sua obra Vigiar e Punir). Obviamente, o mundo da modernidade sólida enfrentava embates infindáveis pela manutenção dessa ordem, engendrando, segundo nos revela Bauman, ambivalências que seriam incapazes de serem resolvidas, pois não existia a possibilidade de relativização da verdade. Portanto, a modernidade sólida foi um contexto de exclusões, de totalitarismos, de barbaridades, onde muitas vidas foram ceifadas por se constituírem um imenso refugo, um “lixo humano”, as “ervas daninhas” que teriam de ser retiradas a fim de não proliferarem e destruírem o “jardim”, quebrando o seu equilíbrio ético e estético.

Por outro lado, com as evoluções econômica, científica, tecnológica, em face à globalização, ao enfraquecimento político do Estado, à exaltação do consumo e à incapacidade histórica de dar conta dos paradoxos originados pelas verdades solidificadas e cimentadas nas instituições sociais e nas formas de viver da modernidade sólida, uma outra ordem social se instaurou como uma nova condição existencial humana, sendo o reverso da ordem normatizada, produzindo o mundo das dúvidas e incertezas, quebrando a perspectiva de linearidade e originando a imprevisibilidade em todos os setores da vida pós-moderna ou da modernidade líquida. A modernidade líquida insere-se no atual contexto como surgida da conseqüência de forças ambivalentes da modernidade sólida. Forças ambivalentes são forças contraditórias e contingentes. Forças que se contrapõem à perfeição, à segurança alcançada anteriormente pela previsibilidade e ao domínio sobre o tempo, o espaço e os padrões de comportamento. Segundo Bauman, a ambivalência tanto pode ser uma luta autodestrutiva quanto autopropulsora, porque, no último caso, operando em vários movimentos e em vários espaços, ela põe fim à mesmice e possibilita ao homem vivenciar um diferente sentido para a sua existência, sendo ele obrigado, com isso, a superar atitudes pacíficas de dominação e abandonar convicções cristalizadas, para entender a efemeridade das coisas, a fragilidade das relações interpessoais e a liquidez da vida.

Segundo Bauman, “as certezas da modernidade sólida se foram, e agora a única certeza são as incertezas”. Na modernidade líquida, tudo passa, se dissolve, se desmaterializa, pois vivemos a era do instantâneo, da rapidez tecnológica, da efemeridade, do líquido que escorre pelos dedos. Não estamos mais ligados e nem queremos estar ligados à rotina, não conseguimos nos manter da mesma forma por muito tempo, é um interminável constante – inconstante. Do panóptico passamos ao sinóptico. Antes poucos vigiavam muitos, e hoje muitos vigiam poucos. É o caso das celebridades (que na modernidade líquida substituem os “heróis” da modernidade sólida), do Big Brother, pois a pós-modernidade é também a Sociedade do Espetáculo. Guy Debord foi um visionário para sua época, quando explicava o funcionamento da espetacularização da vida. Na Sociedade do Espetáculo, o homem é monitorado por algo que ele mesmo criou. O espetáculo tornou-se uma ‘religião’, pois ele tem a autoridade de uma instituição, exercendo poder e domínio sobre os homens. Com o Estado em descrédito e submisso ao poder econômico, quem rege as nossas vidas na modernidade líquida é o consumo. Temos uma existência massificada e manipulada pela mídia, que impõe ao ser humano cada vez mais o desejo infinito de “ter”, uma perversão econômica que classifica a importância das pessoas pelo que elas carregam no carrinho do supermercado, pela grife que usam, pelo bairro onde moram, etc. Quem está destituído desse valor é descartado de poder (ele se vê destituído de poder, porque desconhece o poder que tem), assim como as mercadorias são, formando verdadeiros “lixões humanos” nas periferias das grandes cidades. Esses despossuídos de si,  também as pessoas em geral que vivem uma vida líquida numa época líquida, não têm o mínimo de segurança, projetam-se através do espetáculo, vivem o espetáculo a ponto de não mais saber a diferença entre o que é real e virtual. Tudo é extremamente instantâneo e instável, manipulado e manipulável.

Bauman é fascinante, pois ele pensa a sociedade como um todo, preocupa-se com a conservação ambiental, com a energia nuclear, com a manutenção da vida no planeta. Mas, em meio às moléculas frouxas da modernidade líquida e a falsificação da vida comum da sociedade do espetáculo, não adianta mais insistir nos padrões e regras da modernidade sólida. É utopia insistir na construção de uma família linear, na idéia distante de um “casamento para sempre”, de uma “educação para sempre”, com seus conceitos engessados, pois nada mais dura "para sempre", as incertezas estão potencializadas. A sociedade espetáculo-líquida é a sociedade do movimento em ritmo frenético, do inconstante infindável, afinal já não conseguimos mais tolerar o que dura, não sabemos mais fazer com que o tédio dê frutos. Cabe a nós, que vivemos na modernidade líquida, tentarmos achar saídas para essa realidade que se apresenta imperativa em nossas vidas e à sobrevivência humana na Terra.

Tânia Marques
Texto escrito por mim em 03 de abril de 2011, como síntese do Seminário Bauman I, realizado na UFRGS.

Fonte da imagem:
confabulandoosurreal.blogspot.com

domingo, 13 de março de 2011

Pink Floyd - Another Brick in the Wall - Partes 1 e 2


" (...) E a educação, por sua vez, uma declaração da incompetência social das massas e uma aposta na ditadura do "professorado" (déspotas ilustrados), guardiões da razão, das maneiras e do bom gosto. Não é de se estranhar, portanto, que Bauman, nesse livro, tenha concebido a educação escolarizada como o conceito e a prática de uma sociedade amplamente administrada".



[...] é ensinar a obedecer. O instinto e a vontade de acatar, de seguir as ordens, de fazer o que o interesse público, tal como o definem os superiores, exige que se faça, eram as atitudes que mais necessitavam os cidadãos de uma sociedade planificada, programada, exaustiva e completamente racionalizada. A condição que mais importava não era o conhecimento transmitido aos alunos, mas a atmosfera de adestramento, rotina e previsibilidade em que se realizaria a transmissão deste conhecimento. [...] O tipo de conduta que concordaria com o interesse público seria determinado pela sociedade previamente a toda ação individual, e a única capacidade que os indivíduos necessitariam para satisfazer o interesse da sociedade era a da disciplina. (Bauman, 1997, p.108)
[...] Bauman retoma essa interpretação da educação escolarizada como fábrica da ordem, destinada à produção de corpos dóceis, disciplinados e eficientes, e a analisa levando-se em conta a "transição da modernidade sólida à modernidade líquida [...]. 
Referências: Bauman & a Educação

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Vigiar e Punir, O panóptico de Michel Foucault

Vigiar e Punir, O Panóptico de Michel Foucault

Resumo escrito: lucier
       A punição e a vigilância são poderes destinados a educar (adestrar) as pessoas para que essas cumpram normas, leis e exercícios de acordo com a vontade de quem detêm o poder. A vigilância é uma maneira de se observar a pessoa, se esta está realmente cumprindo com todos seus deveres – é um poder que atinge os corpos dos indivíduos, seus gestos, seus discursos, suas atividades, sua aprendizagem, sua vida cotidiana. A vigilância tem como função evitar que algo contrário ao poder aconteça e busca regulamentar a vida das pessoas, para que estas exerçam suas atividades. Já a punição é o meio encontrado pelo poder para tentar corrigir as pessoas que infligem as regras ditadas pelo poder, e ela também é o meio ilidir que essas pessoas cometam condutas puníveis (através da punição as pessoas terão receio de cometer algo contrário às normas do poder). A vigilância e a punição podem ser encontradas em várias entidades estatais, como hospitais, prisões e escolas. Foi criado até um sistema chamado panóptico para facilitar essa vigilância. Nesse sistema haveria uma torre central a qual avistaria, vigiaria todos de uma só vez que estão a sua volta, já que essa estrutura à volta da torre central era circular. “O panóptico de Jeremy Bentham é uma composição arquitetônica de cunho coercitivo e disciplinatório: possui o formato de um anel onde fica a construção à periferia, dividida em celas, tendo ao centro uma torre com duas vastas janelas que se abrem ao seu interior e outra única para o exterior permitindo que a luz atravesse a cela de lado...” (Michel Foucault - Micro-Física do Poder) A relação entre vigiar e punir está no fato de que com ela seria possível “adestrar” as pessoas para que estas exercessem suas tarefas como bons cidadãos, evitar o máximo que as pessoas infringissem as normas estabelecidas pelo poder, estas idéias podem ser retiradas do livro “VIGIAR E PUNIR”. Segundo Foucault, para a economia do poder seria mais rentável e mais eficaz vigiar do que punir. Isso pode ser facilmente observado se pegarmos o panoptismo como exemplo, pois é muito mais barato vigiarmos as pessoas para que estas não infrinjam as leis, do que posteriormente puni-las, pois na punição terá que ser gasto muito dinheiro para que a pessoa que infringiu a lei seja resociabilizada (reeducada). Além disso, com o sistema panóptico, a vigilância fica ainda mais fácil, já que é possível vigiar várias pessoas ao mesmo tempo, e a punição, para que esta alcance mesmo seu objetivo, ela tem que ser aplicada de maneira individual – pois cada um tem uma maneira diferente de ser reeducado e resociabilizado. Ainda podemos dizer que a vigilância ganhou espaço na economia do poder, pois é muito mais fácil vigiar as pessoas para ver se estas estão mesmo cumprindo suas funções, e com o panoptismo isso fica ainda mais fácil principalmente nas entidades como nos hospitais e nas escolas, do que vir a puni-las caso cometam algum erro. 


Fonte: 
http://pt.shvoong.com/social-sciences/1632203-vigiar-punir-pan%C3%B3ptico-michel-foucault/

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Meus versos para Michel Foucault

(...) o homem de que nos falam e que nos convidam a liberar já é em si mesmo o efeito de uma sujeição bem mais profunda que ele. Uma ‘alma’ o habita e o leva à existência, que é ela mesma uma peça no domínio exercido pelo poder sobre o corpo. A alma, efeito e instrumento de uma anatomia política; a alma, prisão do corpo. (FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1987.)
     
Foucault, eu juro que não quero incomodar-te
Com esta composição que tem certa simetria
Mas quero registrar nela muito daquilo que falaste
A respeito do sujeito e da sua idolatria

Sei que detestavas o culto à personalidade
E nisso eu concordo contigo indubitavelmente
Somente uma reflexão crítica sobre a verdade
Poderá levar o sujeito a rebelar-se totalmente

Da normalização do sujeito à questão dos poderes
Melhor do que tu, ninguém soube explicar
Subjetividade no plural para a produção dos saberes
Jogos de verdade, nós devemos também agenciar

Cada indivíduo que se submete ao discurso do poder
Não tem consciência da sua sujeição e da sua domesticação
Por isso, é preciso escapar do “olho vigilante”, a saber
A fim de libertar-se das estruturas de domínio e mortificação

Foucault, eu agradeço a ti os teus estudos maravilhosos
Toda a tua contribuição filosófica sobre governamentalidade
A história da loucura e o cuidado de si são teus escritos preciosos
Incluindo a arqueologia do saber e a história da sexualidade


Tânia Marques 17/07/09
Fonte da imagem: deusnagaragem.ateus.net/.../