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quinta-feira, 21 de julho de 2011

Michel Onfray- Uma escola libertária e elitista para todos


Entrevista com o filósofo Michel Onfray
[texto retirado da e-revista Brasileira Escola Pública]

Demissionário do sistema de educação do Ministério da Educação Nacional Francês e colocando-se explicitamente dentro da tradição do século 19, o filósofo Michel Onfray fundou, em 2002, uma universidade popular em Caen, com o objetivo de democratizar a cultura, proporcionando gratuitamente o saber para o maior número possível de pessoas - um novo Jardim de Epicuro, mas fora das paredes, lançando as bases para uma autêntica "comunidade filosófica" contra o mercantilismo dos saberes. Outros antes dele haviam pensado em fazer isso, mas sem tomar uma atitude efetiva-principalmente os militantes da ONG Droits Devant! (Direitos em Frente!) quando estes ocupavam o prédio da rua du Dragon, em Paris, em 1994. Dentro da lógica de Michel Onfray, a universidade popular se inspira na universidade tradicional (qualidade das informações, progressão pessoal, transmissão de um conteúdo antes de todo debate).
Contudo, ela conserva do café filosófico à abertura para todos os públicos, a utilização crítica dos saberes e a prática do diálogo. A fórmula precisa respeitar determinados critérios: os docentes são benévolos; as aulas são gratuitas; os participantes totalmente livres. Participa quem quer, sem precisar se inscrever previamente, sem condições de idade ou de diploma, e sem precisar submeter-se a um controle dos conhecimentos. Os curso articulam-se entre uma exposição e uma discussão entre o professor e a plateia. Desde 2003, Michel Onfray oferece, a partir do mesmo modelo, uma universidade popular de verão no Lazaret de Ajaccio (na Córsega). Iguais a estas, outras surgiram, contando, em muitos casos, com o apoio das coletividades locais: perto de Arras (Pas-de-Calais, norte) e em Narbonne (Aude, sudoeste), sendo agora a vez de Lyon.
Nesta entrevista Michel Onfray defende o poder emancipador da pedagogia libertária. A miséria social e moral das nossas sociedades impõe a necessidade de ensinar a todos um saber alternativo e crítico, até porque muitos intelectuais deixaram de se preocupar em tornar popular o saber filosófico.

Le Monde de L'Éducation - Na sua obra La Communauté philosophique (Galilée, 2004) você escreve que "o pedagogo libertário trabalha para o seu apagamento pessoal, e cultiva o poder interrogativo de toda a subjectividade". Por que é que este poder se encontra esgotado no aparelho escolar, quando ainda existem certos professores que conseguem despertar e responder ao desejo de saber dos alunos?

Michel Onfray - A instituição escolar é esquizofrênica: ela tem um discurso, mas leva a cabo uma prática nos antípodas daquele discurso. O discurso é este: a escola forma a inteligência, constrói indivíduos cultivados cujo saber lhes permitiria desenvolver juízos esclarecidos, ensina a ler, a escrever, a fazer contas, a pensar, ela formaria o cidadão ao educá-lo para a liberdade. Mas, a verdade, é que na prática ela negligencia a inteligência para privilegiar o exercício da memória e da repetição calibrado em função de um programa feito para isso. A educação nacional ensina, sobretudo a submissão, a docilidade, a hipocrisia, o artificial. Só assim se pode explicar que num curso de 7 anos de inglês se consiga fazer tão poucos jovens bilíngues. O que é que se aprende durante aquelas intermináveis horas de aprendizagem de línguas senão a arte de bem funcionar dentro da máquina que permita a passagem para o ensino superior, e a produção de diplomas úteis para o mundo da integração social.

Le Monde de L'Éducation - Qual é a genealogia dessa pedagogia libertária que você defende? Estaria no prosseguimento de uma linha que vai de Epicuro a Freinet?

Michel Onfray- Se o termo libertário significar "o que educa a liberdade", ou "o que faz da liberdade o bem supremo", sem dúvida, que poderíamos começar com Sócrates e a sua maiêutica, a sua arte de desenvolver as potencialidades de cada qual e torná-las em realidades tangíveis, podemos depois continuar com Diógenes e os filósofos cínicos que usam um bastão para mandar embora os que procuram um mestre e a submissão. Prosseguimos com Erasmo, o grande e imenso Erasmo, e, certamente, Montaigne, que tanto lhe deve, para falar de várias matérias, como a Educação e tantas outras. Passamos depois para Nietzsche que ensina que um bom mestre é aquele que aprende aquilo que se desprende de si. Seria preciso ainda falar, com certeza, dos autores libertários, que a história conheceu, como Max Stirner e o seu "Falso Princípio da Nossa Educação", Sébastien Faure, que aplicou o seu método em La Ruche, mas ainda A.S. Neill e os seus "Jovens livres de Summerhill" que me fizeram desejar tornar-me professor antes de me desiludir na Escola Superior de Educação. Seria ainda preciso acrescentar o excelente livro "Advertência aos estudantes e liceais" de Raoul Vaneigem.

Le Monde de L'Éducation - Uma certa concepção da pedagogia libertária - nomeadamente a que defende a espontaneidade do aluno - não fará o jogo do "novo espírito do capitalismo" que pretende apoiar a participação dos "atores"? Não contribuirá ela para o idiota útil do "neoliberalismo"?

Michel Onfray- Tem razão.Eu sou um ardente defensor de Maio de 68 e do espírito de Maio, que se definia por uma revolução metafísica antiautoritária. Os dominados punham em causa os dominantes. Os pares tradicionais - mulheres/homens, jovens/velhos, empregados/patrões, esposas/maridos - deixaram de ter um estatuto divino. E tudo isso foi uma coisa boa. Mas à negação dos velhos valores não se seguiu uma positividade. Destruir é bom se, e somente se, propusermos a seguir uma reconstrução. Os valores libertários, por exemplo, mereceriam mais que os simples elogios da indolência, da espontaneidade, do natural, do porreirismo generalizado por via da desvalorização do rigor que se mostrou tão pouco democrático quanto demagógico. Porque esta renúncia à memória, ao esforço, ao trabalho, à cronologia, e todas essas categorias consideradas reacionárias fizeram efetivamente o jogo do poder, que prefere ter um rebanho de inculto embrutecidos que indivíduos apetrechados com o saber e a cultura. A pedagogia libertária não é a pedagogia liberal pós-anos 1960 que deixa o jovem livre na turma, e que dá plenos poderes à competição entre classes sociais, e que é, ela própria, geradora de reprodução social.

Le Monde de L'Éducation - "Passamos de um ensino autoritário a um ensino clientelar", escreve Raoul Vaneigem num texto recente sob o título Modeste Propositions aux Grévistes ( Verticales,2004). "O endoutrinamento suscitava, ao menos, a revolta, a propaganda estimulava o seu oposto, o desejo de pensar de outra forma. O feiticismo do dinheiro enfraqueceu o pensamento que ruge e incomoda." Concorda com esta análise?

Michel Onfray- Vaneigem é um amigo que me estimula - ele acaba por me ultrapassar pela esquerda! - mas não partilho o seu otimismo que está, de resto, na gênese do seu radicalismo político: no meu entender, a autoridade produz uma submissão massiva, pois o medo, o temor e o desejo de servidão voluntária são grandes. A revolta não é gerada pela ditadura - se assim fosse, seria preciso desejarmos a ditadura enquanto momento dialético das revoltas lógicas - mas por temperamentos rebeldes, revoltados, insubmissos gerados por razões existenciais que só uma psicanálise à maneira sartriana - descobrir o projeto original - permitiria compreender. Conheci períodos da minha vida - nomeadamente os sete anos de pensionato, quatro dos quais no orfanato dos salesianos - que fizeram de mim aquilo que sou hoje, mas que também fizeram uma multidão de indivíduos castrados da vida e orgulhosos de o ser. Uma mesma causa não produz felizmente os mesmos efeitos em todos nós. É preciso levar em consideração o prazer de estar submetido, tal como existe com tantas pessoas.

Le Monde de L'Éducation - É procurando retomar o que há de melhor nos cafés-filosóficos e nas Universidades (a liberdade dos primeiros e a seriedade da segunda), ao mesmo tempo em que rejeita o que há de pior em cada qual (o extravasamento de um lado e a secura do outro), que você decidiu fundar a Universidade Popular de Caen. Mas também com o objetivo de retomar e prosseguir o ideal nascido no tempo da questão Dreyfus. Em que medida é ela um meio de lutar contra a situação de crise por que a França atravessa: miséria social, racismo, bloqueios nacionais-populistas etc?

Michel Onfray- O saber é um poder. Posto isto, é preciso um saber específico suscetível de permitir a libertação e não a alienação. A filosofia não é de fato um instrumento de libertação: ensinar as ideias platônicas, falar da Cidade de Deus de S. Agostinho, das teses tomistas, da aposta de Pascal, do ocasionalismo de Malebranche, da angústia de Kierkegaard e de tantas outras matérias da história da filosofia ajudam mais a manter o poder instalado e permitir o domínio do cristianismo do que a emancipar o aprendiz em filosofia. Daí o interesse em ensinar quer um saber alternativo, quer um saber clássico, mas de maneira alternativa, isto é, crítica. A subversão cínica, o hedonismo cirenaico, a libertação epicurista, a alegria gnóstica, só para ficar na Antiguidade, são ilustrações de saberes alternativos; ou então, falar dos saberes clássicos, mas de maneira alternativa: mostrar que o conceito errôneo de pré-socrático, desvalorizando os predecessores socráticos, pressupõe uma escrita platônica da história da filosofia, explicar as razões da evicção do materialismo de Demócrito (cuja obra completa Platão queria queimar em auto-de-fé). Estes saberes permitem construir uma inteligência crítica, mas também realizar um trabalho sobre outras matérias, nomeadamente as que estão associadas a essa crise que referiu.

Le Monde de L'Éducation - Você costuma recordar que intelectuais como Alain, Péguy, Bergson e tantos outros, frequentaram e animaram cursos de educação popular, lançados pelo tipógrafo anarquista Georges Deherme. Os intelectuais dos anos 2000 esqueceram o seu papel de educadores e a ideia de tornar popular, a filosofia?

Michel Onfray- A nossa época midiática produziu dois tipos de intelectuais: o primeiro, especializou-se na miséria limpa, uma miséria longínqua que permita uma postura declamatória à maneira teatral, reproduzida logo de imediato pelos mídia. Tendente a ser midiatizada, e não precisando de nenhum outro compromisso que não seja o verbo, a carta postal ou a consulta de um livro, ela permite tocar o trompete dos grandes princípios maiúsculos: Humanidade, Liberdade, Direitos do Homem etc. O segundo, ocupa-se antes da miséria suja, a que envolve os explorados, os operários, os miseráveis e os excluídos do sistema, as vítimas e outros dejetos do liberalismo, a ideologia defendida pela maior parte dos primeiros. Os intelectuais dos anos 2000 não cuidam da educação popular nem de tornar popular a filosofia: o seu saber é utilizado para fins financeiros, traduzíveis em moedas reais ou simbólicas, mas nunca com o objetivo de uma crítica social.

Le Monde de L'Éducation - Um curso magistral pode ser libertário?

Michel Onfray- Sim, se o magistério do curso magistral for aquele que indiquei ainda há pouco: um mestre libertário que cuida antes de tudo em cartografar e de identificar o conjunto das situações que estão em jogo, fornecendo depois uma bússola e o seu modo de emprego, isto é, convidar cada qual a fazer a sua própria viagem.

Le Monde de L'Éducation - A Universidade popular histórica acabou por desaparecer antes da Primeira Guerra Mundial em razão de causas e desinteligências internas. A Universidade popular tem tido um grande sucesso. Como evitar os perigos?

Michel Onfray- A Universidade popular é um organismo vivo e, como tal, mortal. Os três anos da sua existência já permitem identificar alguns vírus, erros e ataques. Tudo normal. A Universidade popular tem tido efetivamente um grande sucesso público e popular, gerou uma verdadeira energia alternativa, propõe um intelectual coletivo - para usar a fórmula de Bourdieu - eficaz, que logo perturba e incomoda. É normal que a nossa aventura atraia invejas e revele os medíocres, os invejosos, e outras figuras de ressentimento que não existem e não vivem senão por e para a destruição. Mas nós somos uma comunidade de amigos, no sentido epicurista, que vamos experimentando o verdadeiro poder da amizade epicurista. E, depois, sejamos nietzscheanos, o que não mata fortalece-nos. Para o resto, só o Deus das universidades populares poderá dizer se a experiência desaparecerá - sim, porque ela sempre desaparecerá -, seja como vítima da síndrome do recém-nascido ou do catarro dos velhos, seja por suicídio próprio na flor da idade ou por um esgotamento centenário.

Le Monde de L'Éducation - Uma educação "elitista para todos". Esta fórmula do dramaturgo Antoine Vitez adaptada à educação mantém-se atual?

Michel Onfray- Mais atual do que nunca. Gosto mesmo do oxímoro, uma figura de estilo que, associando dois termos aparentemente contraditórios, gera um sentido novo: universidade popular é realmente um oxímoro espantoso! O elitismo para todos, também. Percebe-se que, para além da pura e simples justaposição verbal, para além do simples jogo de palavras, uma nova significação emerge à luz do dia. A expressão elitismo para todos supõe uma outra definição de cada um dos termos; trata-se de dar o melhor ao maior número, porque o melhor existe, sem dúvida, mas normalmente só é dado aos melhores, pelos menos, aqueles que assim são qualificados pela máquina social. Quando é destinado a todos, ao maior número - é essa a minha definição de popular, e também a de Michelet - o elitismo brilha com outra clareza, que muitos se têm esquecido, e que é a da luz do iluminismo.

sábado, 28 de maio de 2011

Entrevista com a Professora Amanda Gurgel para o jornal O Globo.



"Todos sabem como é a rotina de um professor", 
diz professora Amanda Gurgel

por: Paulo Francisco

A senhora esperava toda essa repercussão, no YouTube, com seu depoimento sobre a situação da educação?

AMANDA GURGEL DE FREITAS: Nunca. Eu jamais imaginei que uma situação, que para mim é tão corriqueira e tão óbvia para todo mundo, pudesse ter uma abrangência tão grande. Não tem quem não veja como é a rotina de um professor.

O que a senhora acha que está faltando para mudar a situação do professor?

AMANDA: Posso falar sinceramente: vergonha. Esse caos que existe na educação não é um caos desorganizado, entre aspas, é um caos preparado, existe uma intenção para que a educação funcione desse jeito, para que os filhos da classe trabalhadora jamais atinjam altos níveis de cultura, para que no máximo eles aprendam um ofício.

A senhora hoje tem dois empregos, acorda às 5h da manha e passa o dia todo trabalhando. Como é a vida de um professor sem condições até de se qualificar, de ler? Como faz para se atualizar?

AMANDA: Olha, é muito difícil. Para qualquer professor, isso é muito difícil. Então, na nossa categoria, até é importante tocar nesse ponto, nós vivemos uma certa crise de identidade, porque enquanto a nossa atividade sempre foi considerada intelectual, e ainda hoje leva esse nome de uma atividade intelectual, de formadores de opinião, a verdade é que nós estamos passando por um processo de proletarização, que está se acentuando a cada dia. E a nossa atividade é principalmente manter o aluno em sala de aula, independente de qualquer coisa. Por isso que muitas vezes as pessoas confundem os responsáveis pelo caos e acham que a greve atrapalha os alunos. Na verdade, a greve não atrapalha, justamente por isso, se nós não estivéssemos em greve não teríamos a oportunidade de falar sobre a educação nesse momento, porque estariam todos os alunos dentro da sala de aula controlados pelos professores, que não estariam em condições de ter uma atividade digna, de exercer a atividade docente decentemente, porque as salas são superlotadas, porque as salas são quentes aqui na nossa cidade, porque os professores não têm condições de se atualizarem. Infelizmente, não é dada essa oportunidade para os professores.

A senhora disse que o professor sofre muito de doenças psicossomáticas. A senhora já teve depressão. Como é a saúde dos professores?

AMANDA: Os professores são submetidos a uma jornada de trabalho que é extenuante, sem ter condições de trabalho dígnas. Frequentemente desenvolvem doenças relacionadas à atividade profissional e, em troca, recebem por parte dos governos mais uma forma de opressão, que é impedí-los de darem entrada em licenças médicas ou em readaptação de função. Recentemente, em um consultório, um médico disse que não poderia fornecer um laudo para encaminhar um paciente a uma junta médica porque hoje em dia professor e policial são todos assim, querem ganhar dinheiro sem trabalhar. Dentro do consultório médico ele defendeu a política do governo do estado, dizendo que o governo está muito certo mesmo. Independente do seu estado de saúde, o professor tem mais é que estar em sala de aula. Isso só reforça essa ideia que para o governo educação de qualidade é aluno controlado dentro de sala de aula, independente da condição dessa aula e das condições de saúde do trabalhador.

Depois do sucesso na internet, a senhora pretende se candidatar a algum cargo político?

AMANDA: Nunca pensei sobre isso, não pretendo no momento. Talvez as pessoas possam achar que eu fiz isso por interesse. Mas minha militância é pelas demandas da nossa categoria e não gostaria que fossem confundidas com as do partido. Não tenho pretensão política governamental, mas faço política no meu dia a dia. As pessoas que me conhecem sabem de minha atuação. Talvez em outros momentos a conjuntura possa me levar para outros rumos.


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De onde foi retirada a entrevista acima:

sábado, 21 de maio de 2011

Discurso da profª Amanda Gurgel. Perfeito!

Eu, como professora do Magistério Estadual do RS, endosso e assino embaixo das palavras proferidas pela profª. Amanda Gurgel. O seu discurso igualmente atinge a todos os professores da rede estadual do RS. Solidarizamo-nos e compartilhamos suas falas, numa tentativa de nossa voz ser apenas uma em face ao que enfrentamos em nossa categoria profissional no Brasil. Parabéns professora Amanda Gurgel, por tão bem estar representando a todos nós, trabalhadores em educação, em um país onde as prioridades estão na lata do lixo.

Tânia Marques 21 de maio de 2011

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Pedagogia Libertária e Pedagogia Crítica

Resumo

O objetivo deste texto é apresentar a Pedagogia libertária e a Pedagogia Crítica, explorando as interfaces entre ambas. Inicialmente, expomos, de maneira sintética, a Pedagogia Libertária: suas origens, fundamentos e princípios. Então, analisamos, a partir dos seus principais representantes, a Pedagogia Crítica. Por fim, abordamos as possíveis confluências entre estas tendências pedagógicas.

Palavras-chave: Educação, Pedagogia Crítica, Pedagogia Libertária

Leia o texto na íntegra clicando aqui.

sábado, 26 de março de 2011

Professor, peça de fácil reposição

Estou postando este artigo, pois, como também sou professora,  sou "uma peça de fácil reposição". Quando o recebi por e-mail, do meu amigo Turco, li-o chorando do início ao fim. Não posso acreditar que teremos esse índice de aumento. Trinta e oito reais não dá para comprar um botijão de gás! Irei à Assembléia no dia 08/04, no Gigantinho. Turco, nos encontraremos lá. O companheiro Tarso, como todos os outros políticos, tem que ter a nossa vigilância constante. Quando Ministro da Educação, ele garantia e lutava pela integralização do nosso piso salarial, mas esse ato na prática foi podado pelo governo Yeda. Por isso, abaixo à representatividade. Todos os políticos, desculpem-me a generalização apressada, são pessoas conscientemente cooptadas pelo sistema, só lhes interessa o seu mega salário, os pobres que se danem! Tem muita gente na fila para pegar o teu emprego, e o que é pior, por um salário mínimo. Os "podres" de Brasília se autopromoveram com mais de 60% de aumento em cima do absurdo que já ganhavam. Eu sei que chegará o dia da destruição da pirâmide, quando todos estiverem vivenciando as mesmas necessidades como as que eu estou passando, e já faz tempo. Teremos que dar um basta e implantaremos uma nova ordem nesse caos, só assim conheceremos definitivamente a cooperação. Com fome, não se discute, se age! Inverter a pirâmide cairia na lógica do marxismo, teríamos o proletariado explorando uma outra classe social. Não quero isso. Quero igualdade plena de condições para todos, sem ter que eleger representantes legais para agirem contra nós. Utopia?! Não importa! Beijos, Ana Carolina, pelo teu brilhantismo ao expor a tua opinião, que é minha também.

Tânia Marques 26 de março de 2011

Professor, peça de fácil reposição

* Profa. Me. Ana Carolina Martins da Silva no Sul21

Nós nos sobrecarregamos com a discussão político-pedagógica de nosso ambiente de trabalho, com a discussão do mundo, com a salvação das baleias, dos afogados, dos desprotegidos, lutamos pela paz mundial, pelo bom aprendizado e pela construção das mais diversas áreas do conhecimento, por laboratórios, por merenda escolar. Nós nos dedicamos tanto a construir e ajudar aos nossos educandos a se construírem que nem nos lembramos de nós mesmos. A missão é o objeto, nós somos um soldado fundamental do bom combate. Quanta ilusão! Na verdade, o Sistema nos vê como uma peça necessária, mas de fácil reposição.
As negociações desta semana, tanto do CPERS com o Governo do Estado do RS, quanto do SINPRO, com o Sindicato patronal das Escolas Particulares, SINEPE, parecem comprovar o que no fundo sempre desconfiamos, somos importantes, fazemos um papel fundamental, mas de onde saímos, saem muitos, somos descartáveis. Ainda que venhamos a fazer greve, depois temos de pagar em dinheiro pela rebeldia de querer existir; Podemos nos revoltar e tentar abrir os olhos de nossa comunidade, em termos de contexto político, então somos considerados agitadores, inclusive pela própria comunidade na qual estamos inseridos.
É de se pensar o porquê disso. Eu fico com a velha hipótese da luta de classes. O educador é o marisco entre a luta do rochedo e do mar. A maior parte de nós vem de classes abaixo da classe média. Fizemos a graduação em docência por ser aquela “mais em conta”, como se diz. A educação, além de ser a nossa forma de querer salvar o mundo, é a nossa forma possível de subsistência, nosso trabalho. Assim, magistério não é apenas vocação, magistério é profissão. Uma profissão que pode de fato efetuar uma transformação social. Inverter a pirâmide, eliminar a pirâmide, ensinar a pensar. É óbvio que para quem está no topo não é vantagem nos dar condições dignas de vida. É óbvio que precisamos estar sob controle, submissos, em servidão, com medo de sermos demitidos, de termos nossa vida funcional atrasada por anos. O Sistema não gosta de sopa de letrinhas, o Sistema é um glutão que come pessoas.
Quanto a nós, temos de ver o alto status financeiro e social de profissões que não se dedicam a ideais tão fundos com elegância. Não devemos nos comparar com os outros. Comparemo-nos com nossa própria classe… que classe? Quando conseguimos unanimidade em greve? Quando conseguimos unanimidade em ações políticas? Apesar disso, quem consegue pagar o dentista, a modista, a diarista, a casa própria e outros-que-tais com um salário de professor? A classe é desunida ou está em perpétuo susto? Ficamos vendo os Governos economizar em nossos salários, as Escolas Particulares, em geral, ligadas a grandes instituições com estabilidade financeira, destaque social, economizando no salário de seus professores. Não temos como evitar pensar nas palavras escravidão, assédio moral, violência, exclusão porque o Sistema, na verdade, aterroriza. Eu já tive a experiência de não fazer uma greve por medo. Eu tinha voltado ao Magistério Público Estadual, estava no tal estágio probatório e tive medo. Eu sustentava minha família, eu não poderia ficar sem emprego. Conto isso porque não estou escrevendo com alguém que se coloca como superior. Eu tenho medo de não poder sustentar minha família com minha profissão. Saí da iniciativa privada humilhada por uma demissão. Diferenças da Escola com meu método de ensinar. Então, quando se fala em dinheiro, não é só dinheiro moeda, é dinheiro que gastamos em mais uma porção de batata frita, em doce, em paracetamol, em antidepressivo. É o conjunto da obra que ataca o coração do professor que é terrível. Se fosse para falar em desrespeito por parte dos alunos, humilhação perante pais mimados, coação por parte de colegas em posições de mando, desconsideração por projetos e idéias, sinceramente, quem iria querer ser professor?
Nós. Nós queremos ser professores. Nós que somos filiados ao CPERS, filiados ao SINPRO. Nós que delegamos aos nossos Sindicatos essa tarefa árdua de enfrentar essas feras em nosso nome. Nós que não desistimos de mexer na pirâmide. Nós que fazemos a diferença, nós para cujos espaços depois de abertos não existem peças de reposição porque somos únicos, cada um de nós, ímpares em seu universo de luta e pares dentre os seus.
SINEPE/RS (sindicatos do Ensino Privado), escuta! Queremos reajuste salarial com aumento real para a categoria, Já. 28 de março, segunda-feira, Dia do Aumento Real na Escola, manifestações nas instituições de ensino privado de todo o Estado reforçando a reivindicação por aumento real, e mais, limitação do número de alunos por turma (presencial e a distância); calendário escolar 2011 com a indisponibilidade do professor nas duas últimas semanas de julho; destinação de 30% da carga horária para atividades extraclasse; contratação de professores para as atividades extracurriculares.
Companheiro TARSO, o que é isso, companheiro? Aumento real em R$ 38,00 para quem ganha o básico? Essa proposta de reajuste salarial de 10,91% apresentada à direção do Cpers/Sindicato não satisfaz a categoria. Magistério Público Estadual, já! Assembleia Geral, dia 08 de abril e a luta continua!
E para não dizerem que não falei na UERGS, mais professores começam a se evadir de nossa Universidade por falta de condições profissionais compatíveis com suas formações. Precisamos estar sempre alertas em relação ao nosso Plano de Carreira, que ainda não está na pauta principal do Governo do Estado. Precisamos estar vigilantes a respeito de nossos colegas funcionários, cujos vencimentos, em determinados casos, estão abaixo de um salário mínimo. Precisamos socorrer nossos alunos, com sustentabilidade e assistência, como se espera de uma Instituição Pública. ADUERGS e ASSUERGS: Plano de Cargos e Salários e a abertura das vagas para atender o limite de 300 professores e funcionários, Já!
Políticas pedagógicas, paz mundial, construção das mais diversas áreas do conhecimento, missão e bom combate, que fácil reposição, que nada! O Sistema que se cuide, transformação de realidades e resistência é o nosso ramo de negócios.

* Mestre em Comunicação Social, Professora da UERGS

Fonte do texto:
Fonte da imagem: bohney.com.br

domingo, 13 de março de 2011

Pink Floyd - Another Brick in the Wall - Partes 1 e 2


" (...) E a educação, por sua vez, uma declaração da incompetência social das massas e uma aposta na ditadura do "professorado" (déspotas ilustrados), guardiões da razão, das maneiras e do bom gosto. Não é de se estranhar, portanto, que Bauman, nesse livro, tenha concebido a educação escolarizada como o conceito e a prática de uma sociedade amplamente administrada".



[...] é ensinar a obedecer. O instinto e a vontade de acatar, de seguir as ordens, de fazer o que o interesse público, tal como o definem os superiores, exige que se faça, eram as atitudes que mais necessitavam os cidadãos de uma sociedade planificada, programada, exaustiva e completamente racionalizada. A condição que mais importava não era o conhecimento transmitido aos alunos, mas a atmosfera de adestramento, rotina e previsibilidade em que se realizaria a transmissão deste conhecimento. [...] O tipo de conduta que concordaria com o interesse público seria determinado pela sociedade previamente a toda ação individual, e a única capacidade que os indivíduos necessitariam para satisfazer o interesse da sociedade era a da disciplina. (Bauman, 1997, p.108)
[...] Bauman retoma essa interpretação da educação escolarizada como fábrica da ordem, destinada à produção de corpos dóceis, disciplinados e eficientes, e a analisa levando-se em conta a "transição da modernidade sólida à modernidade líquida [...]. 
Referências: Bauman & a Educação

quinta-feira, 10 de março de 2011

Entrevista concedia a Jorge Bichuetti, do blog Utopia Ativa

1. A vida pulsa e encanta... é lágrima e risos, feridas e esperanças... vivendo sua vida, de mulher e educadora, pergunto-lhe: o que pode na vida, na poesia e na arte?

Bem, sinto-me lisonjeada de ter sido uma das pessoas escolhidas para responder a estas inteligentes e instigantes perguntas. Bem, como mulher, embora tenha sofrido na pele muitas consequências tristes do meu entorno familiar, sinto-me uma pessoa madura, porque soube tirar sempre ótimas lições de vida, tanto das situações boas quanto ruins, mas refletindo principalmente acerca dos acontecimentos negativos, entendendo que são os momentos difíceis que nos impulsionam a busca de saídas, ao crescimento como um todo. Eu me considero uma pessoa feliz, encantada com a vida e com um espírito muito jovem. Como educadora, amo o que faço, e isso já estabelece a diferença entre tantos professores que exercem as suas atividades com repulsa ou insatisfação. Tenho consciência plena da nossa desvalorização profissional, por isso, durante muitos anos, fui uma ativista, uma militante sindical. No entanto, hoje a minha militância se restringe muito mais à sala de aula. Acredito indubitavelmente que não podemos desistir da luta, não somente da luta por melhores salários e condições de trabalho, mas pela construção [construção não é reforma] de um mundo mais igualitário, em que a escola não se resuma a mal preparar seus alunos para o mundo trabalho, incentivando neles a competição, docilizando-os, inibindo seus corpos, policiando seus pensamentos, violando as suas vontades e impedindo a liberação das suas potencialidades criativas. O que pode na vida? Prefiro responder ao contrário, o que não pode na vida? Fome, miséria, desigualdade social, violência de qualquer tipo, injustiças, violação dos direitos humanos, crimes, guerras, drogas, falta de amor, acidentes de trânsito, desmoronamentos, tsunamis, discriminações de qualquer espécie, analfabetismo de letramento, funcional e político, ausência de lazer, corrupção, exploração, fanatismo, sistemas totalitários, censura, homofobia, xenofobia, assédio moral, assédio sexual, seqüestros, tristezas, enfim ficaria enumerando uma lista enorme de atitudes negativas e monstruosas, diante de tudo o que vemos acontecer todos os dias no mundo. O que pode na arte e na poesia? A livre expressão dos sentimentos, da emoção, dos desejos, do prazer, do amor, da criatividade, da originalidade, do sonho, do engajamento político. O registro de um mundo colorido, a luta, um beija-flor, a vida, um estado de alma, a paz.

2. Se alguém lhe perguntasse, assim, de pronto, quem é o jovem dos nossos dias?

O jovem dos nossos dias, dependendo do seu universo familiar, classe social, tribo em que se encontra, é alguém que está preso ao consumismo, às grifes, à tecnologia, à reprodução do sistema, à violência, à alienação política, a futilidades, às drogas, ao tráfico, aos vícios, aos assaltos, à depressão, à passividade, à competição. Porém, deixando de lado esses aspectos citados de maneira um tanto maniqueísta, o jovem de hoje é alguém que não tem consciência das suas potencialidades, ele precisa se inventar, se descobrir como agente da paz e do amor, pois vive egoisticamente voltado para o “ter” e não para o “ser”, via globalização mass media. Isso por que ele vive num meio que o pressiona, que cobra dele este papel de “bem sucedido economicamente”. Esse jovem é aquele que cultua a beleza física, a silhueta esbelta, os músculos bombados, em detrimento do conhecimento de si mesmo e do saber científico e da espiritualidade. Infelizmente, ele acaba reproduzindo tudo isso sem ter tido a oportunidade de experimentar o outro lado, o do sonho, o da utopia por um outro mundo possível, solidário, fraterno, libertário. Claro, não podemos generalizar, seria uma falácia dizer que todos os jovens são iguais. Há os que lutam, há os incompreendidos e os rebeldes, há os insatisfeitos, mas nos resta saber pelo que eles lutam. Eles não têm culpa de estarem “anestesiados”, afinal de contas, a maioria deles foi criada por uma babá eletrônica chamada televisão, e hoje dedica uma grande parte do tempo de suas vidas ao computador. Atualmente, muitos jovens deixam também de trilhar caminhos vanguardistas em função da própria violência social, que os aprisiona em casa; por conseguinte, acabam conhecendo apenas a realidade virtual.  Então, a juventude atual precisa aprender a se perceber singular, para que não seja cooptada pela globalização, e a enxergar a sua própria subjetividade como um instrumento de transformação do mundo em um lugar de muita paz.

3. O que necessitamos para que a educação seja capaz de ser um espaço do devir?

Bem, necessitamos de professores conscientes desta possibilidade, ou seja, a de fazer da sua sala de aula um espaço de ruptura com a alienação, de um professor que aproveite todas as brechas que o próprio sistema deixa, para ativar a capacidade de os alunos construírem importantes devires e a se reconhecerem como agentes desse processo. Igualmente, os alunos também terão de estarem receptivos ao novo, à descoberta de si, ao cuidado de si, aprendendo a se construírem ao mesmo tempo individual e coletivamente, respeitando o ritmo da caminhada de cada um, se permitindo errar e acertar, pensando a vida sempre como um processo de “vir a ser” melhor.

4. Vivemos como nossos pais?... O que os pais poderiam fazer para diminuir a distância entre eles que cuidam e os filhos que almejam se inventarem?

Como mãe, posso afirmar que, em última instância e em alguns aspectos, nós acabamos vivendo como nossos pais, pois estes se constituem desde cedo modelos, referências para nós. Foram eles que nos educaram, eles que nos formaram ou mesmo “deformaram”. Nesta pergunta fica nítida a questão do “conflito de gerações” que acaba por distanciar as visões de mundo entre pais e filhos e, por conseguinte, tudo o que poderia surgir de bom nessa relação. Por haver uma tendência natural à preservação dos filhos, muitas vezes, os pais se colocam como pedras no caminho deles, impedindo seu crescimento através do boicote de experiências, de novas vivências. Contudo, essa é apenas uma visão, pois há também pais que se colocam diante dos filhos numa posição de irmãos mais velhos, metaforicamente falando. Então, há os que limitam demais seus filhos e outros que são totalmente permissivos, e ainda querem ser como eles na aparência e no comportamento. Nem oito nem oitenta. Há que se ter bom senso, respeitar as distâncias diferentes entre a trajetória de vida e o aprendizado de pais e filhos numa sintonia de amor, cuidado, carinho e liberdade para que estes últimos tenham a chance de se perceberem diferentes ou até mesmo uma extensão de seus pais, mas isso só acontecerá por meio da liberdade de suas escolhas, de suas potencialidades e devires.

5. O amor flui e contagia... O amor anda  fora de moda neste mundo neoliberal?

O amor fora de moda não digo, mas diferente dos tempos modernos, em que as coisas eram duradouras, e a hora custava muito a passar no relógio. O amor nos tempos pós-modernos, como afirma Bauman, é líquido, volátil, não cria vínculos nem laço afetivos. Vinícius já dizia: “Que seja eterno, enquanto dure”. Num mundo neoliberal, onde tudo vira mercadoria, aproveitando a deixa de Bauman, o amor entre duas pessoas se esvai rapidamente, tem prazo de validade e, geralmente, ecoa no vazio existencial. Para mim, que tenho como referência um ideal de relacionamento amoroso, baseado no respeito às liberdades individuais e no companheirismo, há uma certa dificuldade para eu conviver com alguém num ritmo frenético de mercadoria descartável, pois não me vejo assim, tampouco me considero uma pessoa  psicologicamente instável. Por outro lado, o amor no sentido de que a humanidade necessita está carente de ideais, de ternura, de carinho, de motivos para existir, ocasionando a violência, a desunião e a competitividade entre todos.

6. O sonho acabou?... O socialismo já é um sonho arquivado?...

Para mim, o sonho não acabou. Uma vez fecundadas as sementes da igualdade, da solidariedade e da fraternidade dentro do coração da gente, o tempo passa e apenas os meios de se fazer a revolução mudam. Não acredito em mudança social significativa, sem antes termos feito a nossa reforma íntima, a nossa libertação dos estereótipos vigentes em nossa sociedade. Podemos multiplicar ideias, pois, como educadora, sei que também sou formadora de opiniões, é um trabalho de formiguinha. Se ele vai nos levar ao socialismo? Não sei, sei apenas que o terreno para ele chegar estará fértil através daqueles que multiplicarem as nossas utopias.

7. Utopia Ativa, diga algo, o que desejar, para nossos amigos que lhe encontram neste blog...

Com relação ao blog Utopia Ativa e à amizade recém-nascida com o Jorge Bichuetti, mas que para mim parece ser de longa data, eu posso afirmar que estou encantada. O Jorge é uma pessoa extremamente sensível e consciente da origem dos problemas sócio-afetivos, políticos e econômicos em nosso país e de nossa gente. No blog eu encontro o registro inteligente dessa sensibilidade e os caminhos, as possíveis soluções para a construção de um mundo melhor. Eu me sinto potencialmente nutrida intelectualmente e amparada afetivamente por suas carinhosas palavras. Parabéns, Jorge, pelo belo blog e pela tua competência ao dar o teu recado.
 Entrevista concedida a Jorge Bichuetti, do blog Utopia e Vida
09/03/2011

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A Rede de Subjetividade Compartilhada e Inclusiva Expressa nos Discursos de Desejos dos Educadores, de Alex Sandro C. Sant'Ana

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Felix Guattari: Os oito "princípios" da esquizoanálise

Felix Guattari: Os oito "princípios" da esquizoanálise
Arquivado em: Esquizoanálise
Escrito por Bernardo Rieux
Qua, 12 de Outubro de 2005 20:30

A esquizoanálise seria um novo culto da máquina? Talvez! Mas não certamente no quadro das relações sociais capitalistas! O progresso monstruoso dos maquinismos de toda natureza, em todos os domínios, e que parece agora dever conduzir a espécie humana para uma inelutável catástrofe, poderia pois, tornar-se a via real de sua liberação. Então, sempre o velho sonho marxista? Sim, até um certo ponto, pois, antes de apreender a história como sendo essencialmente carregada pelas máquinas produtivas e econômicas, penso, ao contrário, que são as máquinas, todas as máquinas que, funcionando à moda da história real ficam, por isso, constantemente abertas aos traços de singularidade e às iniciativas criadoras. Como contestar hoje que apenas uma revolução generalizada poderá, não só melhorar de maneira sensível o modo de vida sobre a terra, mas simplesmente salvar a espécie humana de sua destruição? Trata-se de afrontar tanto os imensos meios de materiais coercitivos como os meios microscópicos de disciplinarização dos pensamentos e dos afetos de militarização das relações humanas. Mesmo que se volte para o Oeste, para o Leste ou para o Sul, a questão fica na mesma: como organizar de outro modo a sociedade. A repressão permanecerá sempre como um dado de base de toda organização social? Porém, nada disso é inelutável, outros agenciamentos sociais, outras conexões maquínicas são concebíveis! Sobre esse ponto, pouco importa se parecemos titubear sobre o marxismo: não há nada a esperar de bom de um retorno às naturezas primeiras (não é por nada que os diversos fascismos não cessam de reclamar sobre elas). Nada mais como solução geral que a menor catarse em pequena escala! Nada pode ser resolvido a não ser pela colocação de agenciamentos altamente diferenciados. Somente deve ficar claro que as máquinas revolucionárias, que mudarão o curso do mundo, não poderão ser efetivadas, e só tomarão uma consistência fazendo-as efetivamente agir, por uma dupla condição:

1) que elas tenham por objeto a destruição das relações de exploração capitalista e o fim da divisão da sociedade em classes, em castas, em raças, etc.

2) que elas se estabeleçam, rompendo com todos os valores fundados sobre uma certa micropolítica do músculo, do phallus, do poder territorializado, etc...

Eis-nos de volta à questão da esquizoanálise! Não se trata, como se vê, de uma nova receita psicológica ou psico-sociológica, mas de uma prática micropolítica que só tomará seu sentido com referência a um gigantesco rizoma de revoluções moleculares, que proliferam a partir de uma multidão de mudanças mutantes: tornar-se mulher, tornar-se criança, tornar-se velho, tornar-se animal, planta, cosmos, tornar-se invisível... - do mesmo modo inventar "máquinas", novas sensibilidades, novas inteligências da existência, numa nova submissão.

Após isso, se eu devesse forçosamente dar como conclusão algumas recomendações de bom senso, algumas regras simples para a direção da análise do inconsciente maquínico, eu proporia os aforismos seguintes que, aliás, poderiam ser aplicados a todos os outros campos, a começar pelo da "grande política":

1 - "Não impedir". Em outras palavras, não acrescentar ou retirar. Ficar, justamente, na adjacência da mudança em curso e extinguir-se tão logo possível (não se trata aqui, pois, de curas que se arrastam durante anos, até dezenas de anos como é a moda atual para a psicanálise!).

2 - "Quando acontece alguma coisa, isso prova que acontece alguma coisa". Tautologia fundamental para marcar aí, igualmente, uma diferença essencial com a psicanálise cujo princípio de base quer dizer que: "quando não acontece nada, isso prova que acontece, na realidade, alguma coisa no inconsciente"; princípio que seve para o psicanalista justificar sua política do silêncio e das esperas indefinidas. Na verdade, é pouco frequente que aconteça verdadeiramente alguma coisa nos agenciamentos do desejo! Convém, também, guardar todo seu relevo para tais acontecimentos e toda sua vitalidade para os componentes de passagem que são a manifestação desses acontecimentos. Os psicanalistas queriam que nós acreditássemos que eles estão em relação constante com o inconsciente, que dispõem de uma ligação privilegiada que os reúne a ele, uma espécie de telefone vermelho, como o de Carter e de Brejnev! O despertar do inconsciente sabe se fazer compreender por ele próprio. O desejo inconsciente, os agenciamentos que não se exprimem pelos sistemas dominantes de semiotização, manifesta-se por outros meios que não enganam. Aqui não se precisa de porta-voz, de intérpretes. Que mistificação é essa de pretender que o inconsciente trabalhe em segredo, que não se possa dispensar um certo tipo de detetive para decifrar suas mensagens e, sobretudo, afirmar que ele está sempre vivo, latente, repelido, quando na verdade ele estaria visivelmente entorpecido, esgotado, morto, e que não haveria mais outro recurso a não ser o de reconstruí-lo, algumas vezes partindo quase do zero? Que alívio, um pouco fraco, como o de encontrar alguém que lhe dê crédito, contra toda aparência, de uma riqueza inconsciente, inesgotável, enquanto tudo ao seu redor - a sociedade, a família, sua própria resignação - parece ter conspirado para exauri-lo de todo desejo, de toda esperança de mudar sua vida! um tal serviço não tem preço e compreende-se por que os psicanalistas cobram tão caro! (1)

3 - A melhor posição para se ouvir o inconsciente não consiste necessariamente em ficar sentado atrás de um divã.

4 - "O inconsciente compromete aqueles que dele se aproximam". Sabemos que "acontece alguma coisa", quando o agenciamento esquizoanalítico atualiza uma "matéria de opção"; torna-se então impossível ficar neutro, pois esta matéria de opção arrasta, no seu sulco, todos aqueles que encontra.

5 - "As coisas importantes não acontecem nunca onde nós as esperamos". Outra formulação do mesmo princípio: "A porta de entrada não coincide com a porta de saída". Ou ainda: "As matérias dos componentes incitando uma mudança não são geralmente da mesma natureza que aquelas dos componentes que efetuam essa mudança". (Exemplo: a palavra se converterá em somático, ou somático em econômico, ou em ecológico, enquanto que o ecológico se converterá em palavra ou em acontecimentos sócio-históricos, etc., etc.) A riqueza de um processo esquizoanalítico medir-se-á pela variedade e pelo grau de heterogeneidade dessas espécies de transferir rizômicos de maneira que nenhuma espécie de semiologia significante, de hermenêutica universal ou de programação política pretenderá traduzi-los, pô-los em equivalência, os teleguiar para daí, finalmente, extrair um elemento comum facilmente explorável pelos sistemas capitalistas. Um significante não representa decididamente a subjetividade esquizo-analítica para um outro significante! Como os componentes não conseguem organizar seus próprios núcleos maquínicos e seus próprios agenciamentos de enunciação, rebelam-se diante da pretensão dos significantes dominantes para interpretá-los. E, em seguida, são eles que fagocitam o componente significante (O que, é preciso repetir, não é de maneira alguma sinônimo de um primado sistemático dos componentes não-verbais "diante do tempo das máquinas!").

6 - Visto que na passagem tratou-se de transfer, penso que estaríamos bem advertidos para distinguir em todas circunstâncias:

- os transfers por ressonância subjetiva, por identificação pessoal, pelo eco do buraco negro;

- transfers maquínicos (máquinas-transfers) que procedem aquém do significante e das pessoas globais, por interações diagramáticas e a-significantes, e que produzem novos agenciamentos antes de representar e transmitir indefinidamente antigas estratificações.

7 - "Nunca nada é adquirido". Nenhum estádio, nenhum complexo nunca é transposto, nunca é ultrapassado. Tudo permanece sempre plano, disponível a todos os reempregos mas também a todas as derrocadas. Um buraco negro pode ocultar um outro! Nenhum objeto pode ser afetado por uma identidade fixa; nenhuma situação é garantida. Tudo é assunto de consistência, de agenciamento e de reagenciamento. A publicação de uma consistência simbólica garantida cem por cento ("como você venceu seu complexo de castração?") é uma operação desonesta e perigosa. Sobretudo da parte das pessoas que pretendem tê-lo adquirido, eles próprios, no decorrer de uma análise tida como didática!

8 - Finalmente, mas na realidade, o primeiro princípio: "toda idéia de princípio deve ser mantida como suspeita". A elaboração teórica é tanto mais necessária e deverá ser tanto mais audaciosa quanto o for o agenciamento esquizoanalítico que admitiu a medida de seu caráter como essencialmente precária.

(1) Poder-se-ia transpor, palavra por palavra, o que nós dissemos aqui do psicanalista ao militante profissional, a quem caberia "fazer existir " a classe trabalhadora como motor-da-história, mesmo quando ela estivesse deprimida, relaxada, cúmplice da ordem dominante - como em certos baluartes do capitalismo - ou, melhor ainda, quando ela não existe praticamente no local, como é o caso em numerosos países do tercerio mundo.

Bibliografia:

GUATTARI, F. O Inconsciente Maquínico - Ensaios de Esquizoanálise. Campinas: Papirus, 1988 (p. 187-191)

Fonte do texto: 

Fonte da imagem: fgbbh.org.br