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quarta-feira, 22 de junho de 2011

Morte no campo: nosso clamor é mesmo inútil?

por Helen Lopes de Sousa


Segundo o ensaísta Hans Magnus Enzensberger, ‘o homem é o único primata que planeja o extermínio dentro de sua própria espécie e o executa entusiasticamente e em grandes dimensões’. Já os filósofos Gilles Deleuze e Feliz Guattari definiram a ‘máquina de guerra’ como ‘exterior ao aparelho de estado’. Fica a pergunta: como caracterizar o atual estado de coisas? Como definir as centenas de assassinatos de camponeses no Brasil atual? Como parar esta máquina de guerra que funciona em silêncio? O noticiário frequente da imprensa revela a vulnerabilidade e insegurança que vivem os milhares de trabalhadores rurais do país. Não existe uma política séria de enfrentamento do problema. De quem é a culpa?
O assassinato é sempre culpa do ‘outro’. Ninguém se arvora em querer partilhar com os assassinatos. O assassinato de camponeses, ativistas, religiosos é um tipo de latifúndio improdutivo que ninguém quer dividir. As mortes dão à sensação de que algo aconteceu, quando nada parece ter acontecido. Trata-se de uma coisa que sempre esteve presente em nossa tosca sociabilidade, algo que acontece sem parar. Uma máquina sangrenta e silenciosa. No Brasil, assassinato de trabalhadores rurais cumpre sua função nos rituais antigos de sacrifícios, servem para nos purificar. Diante das notícias todos se indignam, lamentam, ficam mais ‘bonzinhos’.

Crueldade
A CNBB torna-se santificada... Os políticos se mostram consternados... Os movimentos sociais correm com as caras compungidas e seguram os caixões como se fossem os proprietários privados da dor. Os assassinatos de camponeses têm a vantagem de revelar a inutilidade do nosso clamor. Nosso clamor não está nos assassinatos. O campo não é o mundo das idéias. Lá, o mundo é sangrento e cruel. Portanto, o assassinato é uma maneira eucarística do nosso clamor. Devoramos aqueles corpos como devoramos um prato de chambarí. O assassinato é iluminista, uma aula de vida, melhor, de morte.

Fato comum
Os assassinados/assassinos são mais profundos do que nós. Nós falamos, eles estão atolados até o pescoço na escrotidão do sangue e da merda fétida. Eles nos limpam e nos aliviam. Graças a Deus, não estamos lá. Graças a Deus, podemos-nos ‘injuriar’, nos ‘indignar’. Os assassinos cumprem as ordens invisíveis advindas das mais variadas partes: dos fazendeiros, dos políticos, dos juízes, da lógica colonialista e escravagista e secular. Para eles não existem assassinatos, muito menos assassinos, trata-se apenas de mais um dia comum e corriqueiro e agitado de quem sobrevive no inferno. Os assassinos são nossos enviados especiais, nossa tropa de elite. Os assassinos (desde Chico Mendes, Dorothy Stang, dos 19 sem-terra etc.) são nossas vanguardas, nossos guardas. Fica a sensação de que ‘bem’ e ‘mal’ se misturaram numa massa sangrenta. O país fica chocado, indignado, mas ninguém sabe da verdade. É como se todas as pessoas fossem assassinas e vítimas simultaneamente.

Destino
Os assassinos deixam entrever a síntese do que é o Brasil. Eles agem enquanto os mantenedores da política de extermínio, da nova ordem mundial. A culpa é sempre da vítima. Na verdade, ninguém tem o direito da escolha: nem morto, nem matador. Os incontáveis assassinatos de camponeses servem enquanto coisa útil, porque aprendemos mais sobre o Brasil... Aprendemos muito sobre nosso destino escroto, sobre as reformas que a democracia não quer fazer... Aprendemos que reforma agrária é discurso vazio em momentos de campanha eleitoreira... Aprendemos que a morte é coisa simples e banal... Aprendemos com os assassinatos sobre o oportunismo dos bons.

Culpa
Com os assassinatos de camponeses aumentaram o patrulhamento sobre qualquer debate que discorde da reforma agrária clássica dos sem-terra. Debater sobre as questões da agroindústria e da produção de alimento é ser visto como representante do ‘neoliberalismo de direita’. Os assassinatos de trabalhadores rurais fazem o governo reconhecer um erro político para não cometer um erro político.
Os intelectuais, por sua vez, adoram uma tragédia figée, em galantine, uma tragédia em conserva. Preferimos as tragédias simbólicas. Uma miséria boa e interpretativa. A tragédia e a miséria tinham uma função social: aplacar nossa consciência. Antes, a tragédia existia enquanto mera figurante, agora, ela quer ser coadjuvante principal. Os assassinatos nos revelam como o humanismo é pouco, diminuto.
O assassinato mostra que os fatos correm mais velozes do que as interpretações, do que nossa piedade e condolências hermenêuticas que não explicam nada. Vejam as decisões sublime do tribunal de justiça do Pará sobre Eldorado do Carajás: ‘a culpa foi das vítimas!’ foram 19 culpados. Por fim, os assassinatos demonstram que uma solução para o campo não emociona ninguém, que não estamos suficientemente preparados para realizá-la. Não gera votos, essa é a verdade.

FONTE: Jornal Primeira Página
http://www.primeirapagina-to.com.br/noticia.php?l=b211bd91d7193df336c3300a51e308c7
Ed. Nº 984, Palmas-TO, 19 a 25 de junho de 2011

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Colóquio Deleuze e Guattari

Clique na foto para ampliá-la.

sábado, 23 de abril de 2011

Entrevista com Dr. Jorge Bichuetti

Companheiro de guerrilha virtual a favor dos excluídos e da paz universal, Jorge Bichuetti é médico e psicoterapeuta. Analista institucional e esquizoanalista. Diretor Clínico da Fundação Gregorio F. Baremblitti/ Uberaba - MG. Professor do Instituto Félix Guatarri/ BH. Autor de Lembranças da Loucura, Crisevida e Estrelas Cadentes. Poeta, militante, sonhador...
... Entre amigos, madrigais e a Lua é um nômade caçando o seu devir passarinho.


1. Jorge, o que é realidade, o que é sonho e o que é utopia?

Tânia, é uma alegria conversar com você, suas tribos, insurgentes vidas do porvir. A realidade é uma sub-realidade, um concreto de opressão, exploração e mistificação, que suprime do cotidiano as lutas libertárias, as paixões energizantes e a magia rebelde das virtualidades; o sonho é uma poesia caótica entre as dores da vida e o pulsar do porvir, teimoso, menino moleque, que deseja acontecer; e a utopia, é o sonho pensado visceralmente e assumido como ética, luta e compromisso, é a alvorada que já não é esperada, é buscada, tecida, amada e vivida com a ousadia da luta e com a rebeldia da esperança...

2. De que maneira Deleuze e Guattari, Spinoza e Foucault influenciaram ou influenciam diretamente a sua prática cotidiana de médico psiquiatra?

Eles me deram um olhar de amor e compaixão, liberdade e partilha... Me tiraram dos muros da medicina classificatória e excludente, e me revelaram na loucura, no sofrimento mental, um emergente que denuncia e anuncia... Diz do insuportável e clama por um outro mundo possível... Me fez ver, onde via a doença, a singularidade, o devir, a diferença... E, assim, me ensinaram que o cuidado é vínculo, alegria, ternura, inclusão social e militância por um mundo onde possamos verdejar nossas potências, longe das algemas da normalidade, castradora e asfixiante.

3. Seu blog, Utopia Ativa, é um espaço revolucionário e, ao mesmo tempo, pensante e contestador daquilo que se entende como “normalidade” social. É um território de desterritorializações onde há conexões de fluxos e delírios comunicativos, rejuntando arte, vida, poesia e realidade. Quais são as suas bandeiras de luta e por quê?

Meu blog é um espaço do sonho, da poesia, da luta do povo oprimido que caminha, guerrilha dos becos do cotidiano e sonha com a aurora... Não sei sintetizar minhas bandeiras: são do povo, são as da Terra, são as da vida... Atraveria dizer que luto "por uma nova Terra, por um povo por-vir"... Pelo socialismo libertário; pelo direito à diferença e pelos direitos humanos... Pelo pão nosso de cada dia: pão-alimento; pão-alegria; pão-liberdade; pão-utopia... sou um andarilho das insurgências rebeldes que nos trazem a luz de um novo dia. Por quê?... Pela injustiça, pela lágrima que corre e pela vida não-vivida em cada vida que encontro violentada pela opressão da nossa vil realidade; e por mim, pois, não sei nem quero ser feliz longe da solidariedade e do povo que dá sentido à minha própria vida.

4. A esquizoanálise e o esquizodrama são técnicas que podem ser consideradas pontos de partida para a inclusão do portador de transtornos psiquiátricos no tecido social? Se sim, como isso acontece e quais são os seus benefícios?

São libertárias e permitem a construção de vidas remoçadas nas singularidades que rodopiam sem conseguir criar planos de consistência para seus sonhos e desejos. E trabalham agenciando o novo, a alegria, o brincar, a arte os devires... Isso contagia, isso cria vida. O cinzento normatizador nos silencia e nos cronifica, longe de nós mesmos. Ficamos bem adaptados, porém, numa silenciosa morte civil


5. Por que devemos inventar novas linhas de fuga e traçá-las na vida se elas mesmas, às vezes, são fugidias?

Porque a vida não contempla a vida que carregamos como diversidade, potência, singularidade e devires... São fugidias. Primeiro, porque são vigiadas, negadas e esvaziadas, capturadas pelo sistema; segundo, e isso é maravilhoso, porque são errantes, uma vez que somos metamorfoseantes. Então, precisamos viver, educar e cuidar para a impermanência, para a criatividade, para a emergência de um novo novo, uma nova mudança.

6. Você já sofreu diretamente algum tipo de preconceito ou foi vítima de bullying por ser um médico que pensa o mundo de forma holística e enxerga o ser humano como potência de um devir-desejante-de-libertação dos padrões fascistas, aqueles que são esquadrinhados pela mídia e pela atual sociedade de consumo?
  
Já, mas hoje quase nunca. No início, era sementeira; hoje, há frutos e flores que me permitem andar como uma borboleta que escolhe o que visita, o que cheira e o que come... Não escuto os que negam a vida. Se percebo vida nas críticas, dialogo e cresço. Senão, sigo com as minhas utopias e com os usuários que cantam, poetizam e vivificam nas estradas do cotidiano a validade do cuidado-amor e do cuidado-alegria, da inclusão, da liberdade, da caminhada de partilha. Não sofro bullying, porque aprendi a ver nos que estigmatizam um medo de si e um terror por fugirem dos próprios desejos; agridem por se temerem na loucura, que negam mas que a abrigam nas entranhas de si mesmos...

7. Jorge por Jorge?

Oh! Um militante do porvir, da liberdade e da solidariedade, um menino... e um poeta de sonhos, amores, luares e passarinhos... um homem comum na sua caminhada com o povo oprimido.

Quero agradecer, com imensurável alegria, ao meu querido amigo, Jorge Bichuetti, a sua disponibilidade  e atenção ao responder brilhantemente às questões propostas por mim para este post. Estamos certos de que sua contribuição intelectual, construída por meio de seus conhecimentos e pela sua luta diária na profissão,  pelos seus sonhos e utopias, pelo desejo de construir um mundo melhor, servirá de exemplo a todos aqueles que, assim como nós, pensamos na libertação do ser humano das amarras que o aprisionam em nome de um sistema excludente, violento, asfixiante, injusto, perverso, normatizador e consequentemente opressor. Jorge, muito obrigada e um grande beijo para ti.

Tânia Marques  23 de abril de 2011

Fonte das imagens: 

quinta-feira, 3 de março de 2011

Desterritorialização



Desterritorialização é, nas palavras de Gilles Deleuze, uma "palavra bárbara" proposta por Felix Guattari para o entendimento de processos inicialmente psicanalíticos mas posteriormente ampliados para toda a filosofia desenvolvida pelos dois autores, especialmente na obra Mil Platôs.

Para além da concepção filosófica deleuzeana, em que aparece associada a processos como devir e "linhas de fuga", a expressão insere-se hoje em um amplo debate no âmbito das Ciências Sociais, da Antropologia à Ciência Política e à Geografia.

Assim, muitos autores defendem a tese de que a desterritorialização é a marca da chamada sociedade pós-moderna, dominada pela mobilidade, pelos fluxos, pelo desenraizamento e pelo hibridismo cultural. Devemos tomar cuidado para não sobrevalorizar esta "sociedade em rede" (nos termos de Manuel Castells), fluida e desterritorializada, na medida em que ela aparece sempre conjugada com a reconstrução de territórios, ainda que territórios mais móveis e descontínuos.

Haesbaert (em "O Mito da Desterritorialização") defende que desterritorialização seja um termo utilizado não para o simples aumento da mobilidade ou para fenômenos como a hibridização cultural, mas para a precarização territorial dos grupos subalternos, aqueles que vivenciam efetivamente (ao contrário dos grupos hegemônicos) uma perda de controle físico e de referências simbólicas sobre/a partir de seus territórios. Já que todo indivíduo não pode viver sem território, por mais precário e temporário que ele seja, desterritorialização pode se confundir, neste caso, com precarização territorial. Assim, haveria um sentido genérico, de desterritorialização como destruição ou transformação de territórios (enquanto espaços ao mesmo tempo de dominação político-econômica e de apropriação simbólico-cultural), e um sentido mais estrito, vinculado à precarização territorial daqueles que perdem substancialmente os seus "controles" e/ou identidades territoriais.

O que muitos denominam desterritorialização, especialmente quando relativo às classes mais privilegiadas, trata-se na verdade de uma reterritorialização em novas bases, a que Haesbaert propõe denominar "multiterritorialidade".

Fonte do texto: Wikipédia 

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A Rede de Subjetividade Compartilhada e Inclusiva Expressa nos Discursos de Desejos dos Educadores, de Alex Sandro C. Sant'Ana

Currículo, Diferenças e Identidades


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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Minha opinião sobre alguns dos autores citados neste blog

Eu amo os estudos foucaultianos, quase exerço um culto à personalidade a Michel Foucault, não faço isso, ou seja, me desligo dessa situação de idolatria, porque entendo muito bem o quanto esse filósofo "detestava" qualquer vestígio de endeusamento semelhante aos mitos construídos pela modernidade. Ele não admitia ser tratado assim, deixava seus estudos em aberto para que outros pensadores dessem continuidade a eles, tendo como base os fatos histórico-culturais daquele futuro momento, por isso os seus questionamentos filosóficos também em relação à autoria. Porém, quanto mais o leio, mais me apaixono. Sou uma recente estudiosa de Foucault, na verdade já o conhecia desde época em que eu ingressei no curso de Direito, em 1984, mas logo saí e só retornei nos anos de 1995 e 1996. Depois desta última data, tive de me afastar completamente da faculdade sem concluir o curso.  Já era formada em Letras e segui fazendo a minha pós-graduação. Do ano de 2004 para cá, fiz vários cursos de extensão universitária na UFRGS, na área da Educação e da Filosofia da Diferença, e estou prestes a iniciar o mestrado em Estudos Culturais, por isso tamanha dedicação a todos esses e outros filósofos/estudiosos/pesquisadores/pensadores. Deleuze e Guattari são outros  filósofos que me cativaram em função da possibilidade constante e desejante de novos devires, a arte, a linguagem, a vida adquirindo contornos próprios, desatrelados do sistema e de acordo com a verdade (nem sempre conhecida) de cada um, na realidade,  um "vir a ser" que quebra paradigmas permanentes e gera utopias saudáveis de vida. Ah! Esqueci de dizer, antes de Foucault, eu me considerava althusseriana até a raiz dos cabelos (naquele momento havia essa possibilidade da linguagem de colocar-se como discípulo do mestre). Guy Debord, sob meu ponto de vista, foi um visionário, foi/é magnífico, falava nos anos cinqüenta como se estivesse vivendo em 2011 (que me desculpe Baudrillard, apesar de ser sua fã também, mas ele chegou primeiro e acertou na mosca). Bauman, adorável, estou estudando com afinco todo o material para o mestrado e ninguém está mais identificada com ele do que eu.  Nietzsche, igualmente estou lendo por ser a base de tudo, fenomenal. Gente, por enquanto é só isso.  Não escrevi esse post para tentar passar uma imagem de "mulher maravilha", tenho e terei sempre muito a aprender. À medida que a caminhada se fizer descoberta, prometo compartilhar com vocês as alegrias ou as agruras (se existirem) da trajetória. Beijo grande!

Tânia Marques 18 de fevereiro de 2011.
Fonte da imagem: Escultura de Rodin

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Felix Guattari: Os oito "princípios" da esquizoanálise

Felix Guattari: Os oito "princípios" da esquizoanálise
Arquivado em: Esquizoanálise
Escrito por Bernardo Rieux
Qua, 12 de Outubro de 2005 20:30

A esquizoanálise seria um novo culto da máquina? Talvez! Mas não certamente no quadro das relações sociais capitalistas! O progresso monstruoso dos maquinismos de toda natureza, em todos os domínios, e que parece agora dever conduzir a espécie humana para uma inelutável catástrofe, poderia pois, tornar-se a via real de sua liberação. Então, sempre o velho sonho marxista? Sim, até um certo ponto, pois, antes de apreender a história como sendo essencialmente carregada pelas máquinas produtivas e econômicas, penso, ao contrário, que são as máquinas, todas as máquinas que, funcionando à moda da história real ficam, por isso, constantemente abertas aos traços de singularidade e às iniciativas criadoras. Como contestar hoje que apenas uma revolução generalizada poderá, não só melhorar de maneira sensível o modo de vida sobre a terra, mas simplesmente salvar a espécie humana de sua destruição? Trata-se de afrontar tanto os imensos meios de materiais coercitivos como os meios microscópicos de disciplinarização dos pensamentos e dos afetos de militarização das relações humanas. Mesmo que se volte para o Oeste, para o Leste ou para o Sul, a questão fica na mesma: como organizar de outro modo a sociedade. A repressão permanecerá sempre como um dado de base de toda organização social? Porém, nada disso é inelutável, outros agenciamentos sociais, outras conexões maquínicas são concebíveis! Sobre esse ponto, pouco importa se parecemos titubear sobre o marxismo: não há nada a esperar de bom de um retorno às naturezas primeiras (não é por nada que os diversos fascismos não cessam de reclamar sobre elas). Nada mais como solução geral que a menor catarse em pequena escala! Nada pode ser resolvido a não ser pela colocação de agenciamentos altamente diferenciados. Somente deve ficar claro que as máquinas revolucionárias, que mudarão o curso do mundo, não poderão ser efetivadas, e só tomarão uma consistência fazendo-as efetivamente agir, por uma dupla condição:

1) que elas tenham por objeto a destruição das relações de exploração capitalista e o fim da divisão da sociedade em classes, em castas, em raças, etc.

2) que elas se estabeleçam, rompendo com todos os valores fundados sobre uma certa micropolítica do músculo, do phallus, do poder territorializado, etc...

Eis-nos de volta à questão da esquizoanálise! Não se trata, como se vê, de uma nova receita psicológica ou psico-sociológica, mas de uma prática micropolítica que só tomará seu sentido com referência a um gigantesco rizoma de revoluções moleculares, que proliferam a partir de uma multidão de mudanças mutantes: tornar-se mulher, tornar-se criança, tornar-se velho, tornar-se animal, planta, cosmos, tornar-se invisível... - do mesmo modo inventar "máquinas", novas sensibilidades, novas inteligências da existência, numa nova submissão.

Após isso, se eu devesse forçosamente dar como conclusão algumas recomendações de bom senso, algumas regras simples para a direção da análise do inconsciente maquínico, eu proporia os aforismos seguintes que, aliás, poderiam ser aplicados a todos os outros campos, a começar pelo da "grande política":

1 - "Não impedir". Em outras palavras, não acrescentar ou retirar. Ficar, justamente, na adjacência da mudança em curso e extinguir-se tão logo possível (não se trata aqui, pois, de curas que se arrastam durante anos, até dezenas de anos como é a moda atual para a psicanálise!).

2 - "Quando acontece alguma coisa, isso prova que acontece alguma coisa". Tautologia fundamental para marcar aí, igualmente, uma diferença essencial com a psicanálise cujo princípio de base quer dizer que: "quando não acontece nada, isso prova que acontece, na realidade, alguma coisa no inconsciente"; princípio que seve para o psicanalista justificar sua política do silêncio e das esperas indefinidas. Na verdade, é pouco frequente que aconteça verdadeiramente alguma coisa nos agenciamentos do desejo! Convém, também, guardar todo seu relevo para tais acontecimentos e toda sua vitalidade para os componentes de passagem que são a manifestação desses acontecimentos. Os psicanalistas queriam que nós acreditássemos que eles estão em relação constante com o inconsciente, que dispõem de uma ligação privilegiada que os reúne a ele, uma espécie de telefone vermelho, como o de Carter e de Brejnev! O despertar do inconsciente sabe se fazer compreender por ele próprio. O desejo inconsciente, os agenciamentos que não se exprimem pelos sistemas dominantes de semiotização, manifesta-se por outros meios que não enganam. Aqui não se precisa de porta-voz, de intérpretes. Que mistificação é essa de pretender que o inconsciente trabalhe em segredo, que não se possa dispensar um certo tipo de detetive para decifrar suas mensagens e, sobretudo, afirmar que ele está sempre vivo, latente, repelido, quando na verdade ele estaria visivelmente entorpecido, esgotado, morto, e que não haveria mais outro recurso a não ser o de reconstruí-lo, algumas vezes partindo quase do zero? Que alívio, um pouco fraco, como o de encontrar alguém que lhe dê crédito, contra toda aparência, de uma riqueza inconsciente, inesgotável, enquanto tudo ao seu redor - a sociedade, a família, sua própria resignação - parece ter conspirado para exauri-lo de todo desejo, de toda esperança de mudar sua vida! um tal serviço não tem preço e compreende-se por que os psicanalistas cobram tão caro! (1)

3 - A melhor posição para se ouvir o inconsciente não consiste necessariamente em ficar sentado atrás de um divã.

4 - "O inconsciente compromete aqueles que dele se aproximam". Sabemos que "acontece alguma coisa", quando o agenciamento esquizoanalítico atualiza uma "matéria de opção"; torna-se então impossível ficar neutro, pois esta matéria de opção arrasta, no seu sulco, todos aqueles que encontra.

5 - "As coisas importantes não acontecem nunca onde nós as esperamos". Outra formulação do mesmo princípio: "A porta de entrada não coincide com a porta de saída". Ou ainda: "As matérias dos componentes incitando uma mudança não são geralmente da mesma natureza que aquelas dos componentes que efetuam essa mudança". (Exemplo: a palavra se converterá em somático, ou somático em econômico, ou em ecológico, enquanto que o ecológico se converterá em palavra ou em acontecimentos sócio-históricos, etc., etc.) A riqueza de um processo esquizoanalítico medir-se-á pela variedade e pelo grau de heterogeneidade dessas espécies de transferir rizômicos de maneira que nenhuma espécie de semiologia significante, de hermenêutica universal ou de programação política pretenderá traduzi-los, pô-los em equivalência, os teleguiar para daí, finalmente, extrair um elemento comum facilmente explorável pelos sistemas capitalistas. Um significante não representa decididamente a subjetividade esquizo-analítica para um outro significante! Como os componentes não conseguem organizar seus próprios núcleos maquínicos e seus próprios agenciamentos de enunciação, rebelam-se diante da pretensão dos significantes dominantes para interpretá-los. E, em seguida, são eles que fagocitam o componente significante (O que, é preciso repetir, não é de maneira alguma sinônimo de um primado sistemático dos componentes não-verbais "diante do tempo das máquinas!").

6 - Visto que na passagem tratou-se de transfer, penso que estaríamos bem advertidos para distinguir em todas circunstâncias:

- os transfers por ressonância subjetiva, por identificação pessoal, pelo eco do buraco negro;

- transfers maquínicos (máquinas-transfers) que procedem aquém do significante e das pessoas globais, por interações diagramáticas e a-significantes, e que produzem novos agenciamentos antes de representar e transmitir indefinidamente antigas estratificações.

7 - "Nunca nada é adquirido". Nenhum estádio, nenhum complexo nunca é transposto, nunca é ultrapassado. Tudo permanece sempre plano, disponível a todos os reempregos mas também a todas as derrocadas. Um buraco negro pode ocultar um outro! Nenhum objeto pode ser afetado por uma identidade fixa; nenhuma situação é garantida. Tudo é assunto de consistência, de agenciamento e de reagenciamento. A publicação de uma consistência simbólica garantida cem por cento ("como você venceu seu complexo de castração?") é uma operação desonesta e perigosa. Sobretudo da parte das pessoas que pretendem tê-lo adquirido, eles próprios, no decorrer de uma análise tida como didática!

8 - Finalmente, mas na realidade, o primeiro princípio: "toda idéia de princípio deve ser mantida como suspeita". A elaboração teórica é tanto mais necessária e deverá ser tanto mais audaciosa quanto o for o agenciamento esquizoanalítico que admitiu a medida de seu caráter como essencialmente precária.

(1) Poder-se-ia transpor, palavra por palavra, o que nós dissemos aqui do psicanalista ao militante profissional, a quem caberia "fazer existir " a classe trabalhadora como motor-da-história, mesmo quando ela estivesse deprimida, relaxada, cúmplice da ordem dominante - como em certos baluartes do capitalismo - ou, melhor ainda, quando ela não existe praticamente no local, como é o caso em numerosos países do tercerio mundo.

Bibliografia:

GUATTARI, F. O Inconsciente Maquínico - Ensaios de Esquizoanálise. Campinas: Papirus, 1988 (p. 187-191)

Fonte do texto: 

Fonte da imagem: fgbbh.org.br