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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Minha opinião sobre alguns dos autores citados neste blog

Eu amo os estudos foucaultianos, quase exerço um culto à personalidade a Michel Foucault, não faço isso, ou seja, me desligo dessa situação de idolatria, porque entendo muito bem o quanto esse filósofo "detestava" qualquer vestígio de endeusamento semelhante aos mitos construídos pela modernidade. Ele não admitia ser tratado assim, deixava seus estudos em aberto para que outros pensadores dessem continuidade a eles, tendo como base os fatos histórico-culturais daquele futuro momento, por isso os seus questionamentos filosóficos também em relação à autoria. Porém, quanto mais o leio, mais me apaixono. Sou uma recente estudiosa de Foucault, na verdade já o conhecia desde época em que eu ingressei no curso de Direito, em 1984, mas logo saí e só retornei nos anos de 1995 e 1996. Depois desta última data, tive de me afastar completamente da faculdade sem concluir o curso.  Já era formada em Letras e segui fazendo a minha pós-graduação. Do ano de 2004 para cá, fiz vários cursos de extensão universitária na UFRGS, na área da Educação e da Filosofia da Diferença, e estou prestes a iniciar o mestrado em Estudos Culturais, por isso tamanha dedicação a todos esses e outros filósofos/estudiosos/pesquisadores/pensadores. Deleuze e Guattari são outros  filósofos que me cativaram em função da possibilidade constante e desejante de novos devires, a arte, a linguagem, a vida adquirindo contornos próprios, desatrelados do sistema e de acordo com a verdade (nem sempre conhecida) de cada um, na realidade,  um "vir a ser" que quebra paradigmas permanentes e gera utopias saudáveis de vida. Ah! Esqueci de dizer, antes de Foucault, eu me considerava althusseriana até a raiz dos cabelos (naquele momento havia essa possibilidade da linguagem de colocar-se como discípulo do mestre). Guy Debord, sob meu ponto de vista, foi um visionário, foi/é magnífico, falava nos anos cinqüenta como se estivesse vivendo em 2011 (que me desculpe Baudrillard, apesar de ser sua fã também, mas ele chegou primeiro e acertou na mosca). Bauman, adorável, estou estudando com afinco todo o material para o mestrado e ninguém está mais identificada com ele do que eu.  Nietzsche, igualmente estou lendo por ser a base de tudo, fenomenal. Gente, por enquanto é só isso.  Não escrevi esse post para tentar passar uma imagem de "mulher maravilha", tenho e terei sempre muito a aprender. À medida que a caminhada se fizer descoberta, prometo compartilhar com vocês as alegrias ou as agruras (se existirem) da trajetória. Beijo grande!

Tânia Marques 18 de fevereiro de 2011.
Fonte da imagem: Escultura de Rodin

Guy Debord e o Situacionismo

Guy Debord e o Situacionismo

Resumo escrito por: Kerouak

A postura revolucionária, no quotidiano ocidental, tem sofrido grandes abalos. Devido, particularmente, ao crescimento econômico que entorpece a consciência das massas, aparentemente satisfeitas com a melhoria material das suas vidas. Pergunta-se, no entanto, se o ser humano é feliz, e vive em pleno a sua vida, o seu tempo? Quando aparece alguém a pôr em causa o sistema dominante, torna-se urgente, para a ordem vigente, sinalizar esses indivíduos, e ainda bem…
Em termos gerais, as teorias de Debord atribuem a debilidade espiritual, tanto das esferas públicas, quanto da privada, a forças econômicas que dominam a Europa após a modernização decorrente do final da Segunda Guerra.
Ele posiciona-se do outro lado da barricada, em relação ao capitalismo de estado do bloco socialista e, ao capitalismo do mercado ocidental, considerando-as as duas faces do mesmo problema – a alienação sentida pelas populações – atribuída por Debord às forças do Espectáculo. Uma forma mercantilista de a classe burguesa dominar o proletariado. “Toda a vida das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção se anuncia como uma imensa acumulação de Espectáculos. Tudo o que era diretamente vivido, se afastou numa representação” (Tese 1 “A Sociedade do Espectáculo”, Guy Debord).
Debord não se considerava um filósofo ou director, mas sim um estratega, um general. Ele exorta as massas a agir contra qualquer tipo de opressão do sistema. A insubmissão é a via indicada para destruir a ordem, “O nosso ofício é destruir o mundo.” (“Enganar a Fome”, Guy Debord, Ed. Frenesi, Junho 2000).
“O Espectáculo – diz Debord – consiste na multiplicação de ícones e imagens, principalmente através dos meios de comunicação de massa, mas também dos rituais políticos, religiosos e hábitos de consumo de tudo aquilo que falta à vida real do homem comum: celebridades, atores, políticos, personalidades, gurus, mensagens publicitárias – tudo transmite uma sensação de permanente aventura, felicidade, grandiosidade e ousadia. O Espectáculo é a aparência que confere integridade e sentido a uma sociedade que desenvolveu ao extremo o fetichismo da mercadoria”.
Desta maneira, as relações entre as pessoas transformam-se em imagens e Espectáculo. O Espectáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens, argumenta Debord. O consumo e a imagem ocupam o lugar que antes era do diálogo pessoal, através da TV. e outros meios de comunicação de massas, que produz o isolamento e a separação social entre os seres humanos. A sociedade transforma-se numa Sociedade do Espectáculo, onde a continua reprodução da cultura é feita pela proliferação de imagens e mensagens dos mais variados tipos. A consequência é uma vida contemporânea exposta e invadida pelas imagens, operacionalizando um novo tipo de experiência humana, caracterizada por um modo de percepção, no qual é cada vez mais difícil separar a ficção da realidade. O Espectáculo é a perda, a falsificação do mundo, trata-se de uma experiência vivida pelos outros, que reduz o carácter lúdico da vida.
Guy Debord assume uma postura de resistência ao mundo completamente mercantilizado, mas sugere, contudo que uma outra forma de vida é possível. A exploração de um território desconhecido impõe-se, descolonizando o quotidiano e ocupar um espaço físico que possibilite a construção experimental de uma nova realidade – para tal Debord preconiza transformar a memória em real e o real em possível. Todos temos que dar o nosso contributo, transformando-nos em artistas da vida quotidiana.
Debord assume uma crítica radical contra qualquer tipo de imagem, que leve o homem à passividade e à aceitação dos valores preestabelecidos pelo capitalismo. Para este, a sociedade está contaminada pelas imagens – sombras do que efectivamente existe, onde se torna mais fácil ver e verificar a realidade no reino das imagens e não no plano da própria realidade. “Lá onde o mundo real se converte em simples imagens, as simples imagens tornam-se seres reais e motivações eficientes de um comportamento hipnótico.” (Tese 18 – “A Sociedade do Espectáculo, Guy Debord). Debord sustenta que no plano das técnicas, a imagem construída e escolhida por outra pessoa tornou-se a principal ligação do indivíduo com o mundo que antes, ele olhava por si mesmo, de cada lugar aonde pudesse ir. A partir de então, é evidente que a imagem é possível justapor sem contradição qualquer. O fluxo de imagem carrega tudo: outra pessoa comanda a seu bel-prazer esse resumo simplificado do mundo sensível, escolhe aonde irá esse fluxo, e também o ritmo do que deve aí manifestar-se, como perpetua surpresa arbitrária que não deixa nenhum tempo para reflexão, tudo isso independe do que o Espectador possa entender ou pensar.
Para Debord nenhuma imagem é inocente, ela integra o contexto social; cada imagem é uma revelação, tem uma essência própria. Ele reconhece ao cinema um carácter messiânico (milagroso). Utiliza-o como técnica operativa para intervir no presente. Trata-se para ele de destruir os códigos a partir do seu interior, rompendo com toda a fascinação espectacular e sistematicamente dissocia a imagem e o som, afirmando o primado do pensamento sobre o visual, frequentemente graças a imagens ou a planos subvertidos.
Debord apropria-se de material cinematográfico, descontextualizando e recontextualizando num discurso próprio, criando condições de pensamento sobre as imagens. Através da montagem cria imagens dialéticas com carregada tensão dramática.
Guy Debord e o Situacionismo Originalmente publicado no Shvoong: http://pt.shvoong.com/social-sciences/sociology/2094378-guy-debord-situacionismo/








Você pode conferir o manuscrito do filme no seguinte site:
http://www.reocities.com/projetoperiferia4/critica.htm

"Técnica e esteticamente, os filmes de Debord estão entre as obras mais brilhantes e inovadoras da história do cinema. Mas realmente estão mais para provocações subversivas do que para «obras de arte». Em minha opinião, podem ser qualificados como os filmes radicais mais importantes feitos até hoje, não só por expressarem a perspectiva radical mais profunda do último século, como também por não terem nenhum real paralelo no mundo cinematográfico. Muitos filmes expuseram este ou aquele aspecto de sociedade moderna, mas Debord foi o único que encarnou uma crítica consistente ao sistema global como um todo".

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Orkut, Big Brother e a Sociedade do Espetáculo

A publicação deste texto foi-me concedida, via mensagem direta do Twitter, pelo seu autor, Glauber Ataide, do Blog Perfeição. Muito obrigada!
Guy Debord compreendeu de tal forma o mecanismo do espetáculo sob o capitalismo que, ao lermos sua intocável obra "A sociedade do espetáculo", de 1967, temos a impressão que o autor já conhecia fenômenos como Orkut, MSN e Big Brother. Mas não era isso. É que ele conseguiu compreender a essência daquilo que, no capitalismo, levaria ao desenvolvimento desses fenômenos.

Mas o que é o "espetáculo"? Para Debord, "o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens".

José Arbex Jr. no livro "Showrnalismo: a notícia como espetáculo", explica assim:

"O espetáculo consiste na multiplicação de ícones e imagens, principalmente através dos meios de comunicação de massa, mas também dos rituais políticos, religiosos e hábitos de consumo, de tudo aquilo que falta à vida real do homem comum: celebridades, atores, políticos, personalidades, gurus, mensagens publicitárias – tudo transmite uma sensação de permanente aventura, felicidade, grandiosidade e ousadia. O espetáculo é a aparência que confere integridade e sentido a uma sociedade esfacelada e dividida. É a forma mais elaborada de uma sociedade que desenvolveu ao extremo o ‘fetichismo da mercadoria’ (felicidade identifica-se a consumo). Os meios de comunicação de massa – diz Debord – são apenas ‘a manifestação superficial mais esmagadora da sociedade do espetáculo, que faz do indivíduo um ser infeliz, anônimo e solitário em meio à massa de consumidores’".

O espetáculo é a vida mediada por imagens, isso é, quando a vida é deixada de ser vivida diretamente para ser vivida através de imagens. O espetáculo é a negação da vida. Essa lógica, identificada por Debord já na década de 60, é a mesma que levou ao desenvolvimento das atuais redes virtuais de relacionamento.

O Big Brother é uma outra expressão inequívoca do espetáculo. Seu nome vem de um personagem chamado "Big Brother", da obra "1984", de George Orwell. O Big Brother (ou "Grande Irmão) era o ditador da Oceania, um estado totalitário. Através de câmaras, ele vigiava todos os cidadãos dentro de suas próprias casas.

A falsa realidade apresentada pelo reality show Big Brother é consumida por uma multidão hipnotizada e ávida por realidade. Mas o que encontram é apenas uma realidade que esvaziou-se, assim como eles próprios. O Big Brother é uma "ficção do real".

Os participantes se submetem a uma exposição humilhante de sua intimidade (como quando fazem sexo dentro da casa) apenas para obter uma fama quase tão passageira quanto a sua participação no programa. Mas Debord já explicava o por que disso:

"A primeira fase da dominação da economia sobre a vida social levou, na definição de toda a realização humana, a uma evidente degradação do ser em ter. A fase presente da ocupação total da vida social em busca da acumulação de resultados econômicos conduz a uma busca generalizada do ter e do parecer, de forma que todo o "ter" efetivo perde o seu prestígio imediato e a sua função última. Assim, toda a realidade individual se tornou social e diretamente dependente do poderio social obtido. Somente naquilo que ela não é, lhe é permitido aparecer."

Na sociedade do espetáculo, não basta a degradação do ser ao ter. Ela vai além, e degrada o ter em parecer ter.

Uma curiosa ocorrência disso encontramos entre membros da classe média, que moram em minúsculos apartamentos mas possuem carros extravagantes na garagem. Como quase ninguém os conhece em sua intimidade, eles não precisam de um imóvel grande para acomodar visitas. No entanto, como muita gente lhes vê nas ruas desfilando com o seu automóvel (desde que o seu vidro não seja fumê), daí então a necessidade do parecer.

O espetáculo, vale repetir, é a negação do real. É a vida deixada de ser vivida diretamente para ser vivida através de imagens, através do consumo de imagens. O espetáculo hoje está mais explícito do que nunca.

Vamos finalizar com o aforismo 30 do livro de Debord:

"A alienação do espectador em proveito do objeto contemplado (que é o resultado da sua própria atividade inconsciente) exprime-se assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo. A exterioridade do espetáculo em relação ao homem que age aparece nisto, os seus próprios gestos já não são seus, mas de um outro que lhos apresenta. Eis porque o espectador não se sente em casa em parte alguma, porque o espetáculo está em toda a parte."